É curioso, para dizer o mínimo, como alguns setores da esquerda reagem às injustiças que a gente vê todo dia. Quase sempre, a resposta é bem seletiva. Com tantos problemas batendo na nossa porta, cada grupo acaba escolhendo quais causas merecem holofote e quais podem esperar. Essa ‘escolha’ revela um monte de coisa: valores, o que é prioridade e, convenhamos, até umas conveniências, muitas vezes guiadas pelo engajamento do momento.
A Seletividade em Pauta: Quais Lutas São Prioridade?
Essa história de escolher a dedo as causas para se indignar não é novidade. Mas, quando olhamos de perto, a gente percebe que essa dinâmica tem gerado discussões importantes sobre o papel dos movimentos sociais e a própria coerência de um discurso que prega a justiça para todos.
O Caso Janja: Dinheiro Público em Debate
Um exemplo bem recente dessa seletividade é a polêmica envolvendo a primeira-dama, Rosângela Lula da Silva, a Janja. Ela foi alvo de críticas por gastos em viagens oficiais usando o cartão corporativo. Janja defende que tudo seguiu os protocolos de segurança e transparência, e que as acusações têm um viés misógino. O Tribunal de Contas da União (TCU) chegou a arquivar processos sobre o tema, sem encontrar irregularidades.
Por mais que haja legalidade, já que o TCU arquivou, a gente não pode fechar os olhos para a questão da moralidade. Gastar dinheiro público, ainda mais em um cenário com tantas denúncias de miséria e desigualdade social – e o pior, muitas vezes feitas pelos próprios setores que criticam a desigualdade – parece, no mínimo, um contrassenso enorme para quem defende um projeto de esquerda. Não combina, né?
Enquanto uns se mobilizam com garra contra o racismo, outros levantam a bandeira da misoginia, e tem quem foque na pobreza. Há também quem ainda se revolte contra o colonialismo ou a violência doméstica. E veja bem: nenhuma dessas causas é menos importante. Todas carregam dramas humanos pesadíssimos e precisam de soluções de verdade. Mas o fato de algumas mobilizarem multidões e outras ficarem esquecidas mostra o quanto nossas escolhas são, sim, parciais.
A crítica mais batida à esquerda brasileira pega justamente nessa seletividade. Dá pra ver uma mobilização gigante contra o racismo ou a misoginia, mas uma disposição bem menor para encarar a corrupção, a violência urbana ou a altíssima carga tributária que pesa no bolso de todo mundo. Essa percepção, claro, enfraquece o discurso político. Afinal, se a luta por justiça é universal, por que não estender essa mesma força para todas as formas de injustiça, inclusive aquelas praticadas pelo próprio Estado contra cidadãos e trabalhadores?
O problema fica sério quando outras batalhas são minimizadas ou relativizadas. Quando a fome, que tem soluções bem claras e pode ser combatida por qualquer lado político, é tratada como algo menos urgente que a misoginia, ou quando a corrupção vira um ‘detalhe’ perto de outras pautas, o resultado é um discurso todo picotado que não consegue unir a sociedade.
Essa indignação seletiva não é só uma falta de coerência moral. Ela também vira um baita obstáculo para que a ação política seja, de fato, eficaz. Movimentos que se fecham demais em causas super específicas correm o risco de virar uma espécie de gueto ideológico, sem conseguir dialogar com a quantidade enorme de dores que a nossa sociedade enfrenta.
Justiça Social ou uma Tal de “Justiça Cósmica”?
O pensador Thomas Sowell notou um fenômeno bem curioso: essa busca pela tal ‘justiça social’ muitas vezes se transforma em algo que ele chamou de ‘justiça cósmica’. É tipo uma ideia de justiça que vai além do que acontece entre indivíduos, e começa a ser aplicada a etnias inteiras, classes sociais, grupos de renda ou até mesmo a ancestrais que já morreram. É a coletivização da culpa, que na verdade, deveria ser individualizada. Ou seja, uma justiça que nenhum ser humano consegue aplicar, só divindades.
A Diferença entre Culpa Real e Abstração Ideológica
A justiça que a gente conhece, a humana e possível, consegue dizer quem é culpado por algo, com provas claras e objetivas. Já essa ‘justiça social’ ou ‘cósmica’ tenta jogar a culpa em pessoas que já se foram ou em grupos inteiros, sem ter provas concretas, apenas mostrando algumas disparidades em estatísticas. Isso não comprova uma ação criminosa de ninguém em específico, e aí os supostos ‘criminosos’ acabam virando figuras demonizadas. Ao mesmo tempo, as ‘vítimas’ são mistificadas, transformadas em massas sem forma, intocáveis, incapazes e sem culpa pela própria situação.
Essa lógica perigosa cria um cenário onde ‘culpados’ e ‘vítimas’ são definidos mais por conveniência ideológica do que por fatos reais. É uma visão que, como já alertava F. A. Hayek em sua obra, gera erros profundos nas políticas públicas e acaba minando a própria noção de responsabilidade individual, que é tão importante.
O Desafio: Ter uma Indignação Que Abrace Tudo
Pra ter uma transformação de verdade, a gente precisa que a indignação seja menos seletiva e mais abrangente. A corrupção, a misoginia, o racismo, a fome, os impostos abusivos e a violência não são problemas que vivem isolados. Pelo contrário! São todos sintomas de uma estrutura que explora e favorece poucos, uma estrutura patrimonialista. A busca por uma ‘justiça cósmica’ pode soar nobre, mas no final das contas, ela se mostra inviável e até perigosa, porque troca uma justiça concreta e real por ideias abstratas que nunca vamos alcançar. No fim, a gente fica sem as duas.
O desafio não é largar as causas que a gente já abraça. É, sim, entender que todas elas fazem parte de um mesmo tecido social e precisam ser ligadas a uma forma de combate que realmente funcione: seja no campo social, mudando mentalidades, ou no legislativo, criando leis e garantindo que os tribunais as apliquem. A gente precisa lutar pelo que deve virar lei e ser combatido pela justiça, e pelo que precisa ser combatido na sociedade, no dia a dia.

